Dia das avós: Não se fazem vovós como antigamente – ainda bem!

JUL 25, 2021

Mariana Floriano - Tribuna de Minas. Confira matéria original aqui.


Em comemoração ao Dia dos Avós, a Tribuna compartilha três histórias que refletem o perfil mais ativo social e economicamente dos idosos, que têm amor e energia de sobra para acompanhar os netos e os bisnetos


“Em casa de avó pode tudo”, você, com certeza, já ouviu, ou até mesmo usou essa frase em algum momento de sua vida. Café fresquinho, bolo na mesa e uma boa história pra contar é o que não falta na companhia dos avós. Na correria do dia a dia, essas demonstrações de amor se transformaram. Hoje, a relação entre avós e netos mantém o que é essencial, o carinho e o respeito, mas os formatos podem ser bem diferentes, desde uma imagem desejando “bom dia” no Whatsapp, até mesmo uma vídeo chamada – com aquela típica dificuldade na comunicação.


Há quem diga que ser avô é a melhor fase da vida. Mas é certo que os avós de hoje em dia não são iguais aos de antigamente. Uma pesquisa desenvolvida pelo C. Lab, o laboratório interno da Nestlé Brasil, mostrou que a nova geração de avós é muito mais ativa social e economicamente. Com mais tempo, menos regras e muito carinho, a pesquisa comprova que os avós estão sendo cada vez mais queridos por seus netos. De acordo com 92% dos entrevistados, para os netos, os avós são aqueles que dão amor, outros 74% disseram que são pessoas que fazem comidas gostosas, já 74% afirmaram que os avós são aqueles que fazem as vontades do neto.


Em comemoração ao Dia dos Avós, que é celebrado nesta segunda (26), a Tribuna traz três histórias que refletem bem esse novo perfil. Avós repletas de carinho e com energia de sobra para acompanhar o ritmo de seus netos sem ficar para trás.


“Ser avó não tem explicação, é a melhor coisa do mundo. Não tem compromisso. Se eles começam a me aborrecer, eu já mando de volta para casa”, resume a vovó Sandra Villela, de 68 anos (Foto: Jéssica Pereira)


Uma avó que é o máximo


Sandra Villela tem 68 anos, é empresária, motociclista e avó de cinco netos que a consideram “o máximo”. E eles têm todo o motivo para dizerem isso, afinal, neste domingo (25), Sandra embarca para uma maratona de 1.600 quilômetros em cima de uma moto. “É uma prova de resistência, nós vamos sair de Seropédica (Rio de Janeiro) até São José dos Pinhais (Paraná), depois voltar para Piraí (Rio de Janeiro), tudo em até 24 horas”, conta.


A prova, chamada “Iron Butt”, é apenas um dos desafios que Sandra já enfrentou. Ela, que viajou para diversos países do mundo em sua moto, diz que o motociclismo está no sangue da família e é passado de geração a geração. “Não me lembro de quando comecei a pilotar. As memórias mais remotas que eu tenho, são com seis, sete anos, pilotando com meu pai, na vespa.” E com os netos não está sendo diferente. Os meninos, de 10, 8 e 7 anos, e a neta mais velha, de 12 anos, já demonstram o mesmo interesse da vó. “Eles adoram. Os meninos, inclusive, estão fazendo aula de motocross. A gente costuma sair sempre para passear aqui na fazenda.”


Para ela, se divertir e ser avó andam lado a lado. “Ser avó não tem explicação, é a melhor coisa do mundo. Não tem compromisso. Se eles começam a me aborrecer, eu já mando de volta para casa”, conta Sandra rindo. “Na verdade, eu me lembro de ter mandado eles de volta uma vez só. Mas o bom é que você pode fazer isso. Então, eu fico só com a parte boa. Quem educa são os pais. Não é que a gente deseduque, mas a gente não tem essa obrigação.”


E essa rotina de diversão faz com que os netos sempre a procurem. “Eu adoro ficar com os meus netos, eles adoram ficar comigo, a gente se vê toda semana. Eles sempre querem estar comigo, isso me dá muito prazer. Ser avó é muito bom, eu fico aqui me divertindo. Nesse momento que a gente está conversando, por exemplo, o meu neto acabou de pular aqui na piscina, com esse frio!”.


Voltar a ser criança aos 91 anos


Disposição para acompanhar o ritmo dos netos e bisnetos é o que não falta a Maria de Lourdes Picorelli Assis, de 91 anos. “Hoje mesmo meus bisnetos combinaram de vir fazer pão aqui comigo, vai ser uma confusão, mas a gente divide esse momento com eles enquanto conversa e aprende. São nesses momentos de diálogo, de brincadeira, que a gente vai colocando umas liçõezinhas para a vida, de amor e de respeito”, conta.


E é sempre através desse equilíbrio entre o amor e o respeito que Maria de Lourdes constrói a relação com seus dez netos e cinco bisnetos. “A caminhada foi longa, e é uma caminhada bonita, que a gente vai aprendendo com cada momento da vida. As crianças hoje estão muito evoluídas, e é uma graça ser avó e bisavó e acompanhar o crescimento deles.”


Saber aproveitar e agradecer todos os momentos da vida são ensinamentos que Maria de Lourdes adquiriu nos quase 50 anos no qual ensina a filosofia do Yoga. Até a pandemia, ela ministrava aulas de Hatha Yoga em sua sala no Bairro Bom Pastor, em Juiz de Fora. Segundo ela, se manter uma pessoa ativa interfere até mesmo na relação com os netos. “Eu ainda dirijo! Não no meio da cidade, onde o trânsito é horrível. Mas dirijo, venho para o meu sítio, onde tenho minhas plantas, minhas orquídeas, faço minha caminhada e venho mantendo a minha independência enquanto Deus permite.” Segundo ela, já foi tempo em que as avós ficavam restritas aos afazeres domésticos.


Ser avó, para ela, é abrir ainda mais o coração e viver, na medida em que se revive, com os netos e bisnetos, emoções lá de trás, de onde ainda era criança. “Com os bisnetos a gente se torna criança de novo. É muito gostoso, como ser avó duas vezes. Temos uma troca de experiências com mais facilidade, sem imposição, uma troca de amigos, um respeito de amigo para amigo.”


“Hoje mesmo meus bisnetos combinaram de vir fazer pão aqui comigo, vai ser uma confusão, mas a gente divide esse momento com eles enquanto conversa e aprende. São nesses momentos de diálogo, de brincadeira, que a gente vai colocando umas liçõezinhas para a vida, de amor e de respeito”, aponta Maria de Lourdes Picorelli Assis, vó de 10 e bisa de 5 (Foto: Jéssica Pereira)


Ser avó é renovar a capacidade de se impressionar


Se, para muitos, a aposentadoria é um tempo de descanso, para Anezia da Silva, de 79 anos, é o momento certo para desfrutar da vida e principalmente curtir com os bisnetos. Quando foi avó pela primeira vez, ela tinha 45 anos e, por estar trabalhando, não podia passar todo o tempo que gostaria com os netos pequenos. “Tinha sempre muito amor, passeios ao museu quando o tempo permitia, mas não tive a oportunidade de ter tanto contato quanto estou tendo agora com os meus bisnetos.”


Avó de três netos e quatro bisnetos, sua atividade mais frequente, com a pandemia, tem sido passar um tempo maior com eles. “Antes da pandemia, eu realizava diversas atividades. Onde existia movimentos de convivência de idoso, lá eu estava. Fazia ginástica, vôlei adaptado, dança de salão, dança folclórica, teatro. Todos projetos do Centro de Convivência do Idoso (CCI) e do Sesc Juiz de Fora.”


Para ela, ser bisavó é se impressionar com tudo. “Tudo o que os nossos bisnetos fazem, a gente fica impressionada, é muito gratificante poder estar com eles e participar desses momentos juntos.”


Além de avó em tempo integral, Anezia também é vereadora sênior da Câmara de Juiz de Fora, projeto que conta com 20 idosos e cinco instituições que trabalham e assistem pessoas idosas na cidade. Além disso, ela também faz parte da Comissão Permanente de Defesa da Pessoa Idosa, grupo que debate a eficácia das leis de proteção a esse segmento da população.


Sobre sua militância política em prol do direito dos idosos, Anezia afirma que estar ativa nesses movimentos é importante, não apenas para crescimento pessoal, mas também para discutir sobre a situação vivida por muitos idosos em Juiz de Fora.


“Eu acho muito bom ter essa representatividade dos idosos na política da cidade. Hoje em dia, os idosos estão cada vez mais ativos. Antigamente, como o caso da minha avó e da minha mãe, que, depois dos 50 anos, já se consideravam velhas, hoje não. Por isso temos que valorizar essas pessoas, que estão ativas e têm uma grande experiência de vida e muito conhecimento. Mesmo aqueles que são mais simples, têm muita informação para passar. E nós temos que dar valor a isso.”


A primeira legislatura da Câmara Sênior atuou de janeiro de 2018 a dezembro de 2019, sendo reconduzida a um novo mandato que se iniciou em março de 2020. Com o início da pandemia, as reuniões da Câmara Sênior foram suspensas e deverão ser retomadas quando tiverem fim as restrições sanitárias impostas pela pandemia da Covid-19.


“Tinha sempre muito amor, passeios ao museu quando o tempo permitia, mas não tive a oportunidade de ter tanto contato quanto estou tendo agora com os meus bisnetos.”, conta Anezia da Silva, avó pela primeira vez aos 45 anos (Foto: Arquivo Pessoal)


Políticas públicas para um país cada vez mais idoso


Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil vive um dos processos de envelhecimento mais intensos e rápidos do mundo. Enquanto a França levou 145 anos para dobrar sua população de idosos, no Brasil a projeção é que em 25 anos a população de 60 anos ou mais passará de 10% para 20%.


Discutir o papel ativo do idoso na sociedade e seus direitos como cidadão é uma política necessária para se pensar no futuro. O assistente social e gerontólogo, José Anísio Pitico, afirma que é preciso entender que não há apenas um tipo de velhice.


“A velhice é constituída sobre as implicações sociais, econômicas e políticas que as pessoas já idosas vivenciam na sociedade. Às vezes, uma pessoa do mesmo marco etário, com 60 ou 70 anos, é uniformizada como pessoa idosa, mas a proporção do envelhecimento entre elas é muito diferente. Você vai ter alguns envelhecimentos mais ativos, com qualidade de vida, que permitem usufruir do convívio familiar e da convivência social, porém outros, que são a maioria dos casos na população brasileira, são de pessoas beneficiárias do INSS, que mal conseguem dar conta de suas despesas e manutenção de vida. Nesses casos, é muito complicado ter uma qualidade de vida melhor, se comparado a uma velhice mais elitizada, com uma formação intelectual diferenciada e que fazem parte de um contingente econômico melhor.”


Pitico destaca a importância de políticas públicas que garantam aos idosos, especialmente os de menor poder aquisitivo, o direito à cidadania, assegurado em documentos oficiais como a Política Nacional do Idoso e o Estatuto do Idoso. “É uma obrigação do Estado com essa população, não como uma dádiva, mas como um direito à cidadania, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida das pessoas idosas no país e na nossa sociedade como um todo. Por isso, é necessário um envolvimento maior de toda comunidade nesse tipo de política que vai atender, principalmente, esses idosos que são destituídos de poder econômico e social, garantindo a eles uma velhice mais ativa e participativa.”

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