Estudo demonstra que há traços de personalidade que têm impacto no declínio cognitivo

ABR 20, 2022

Sofia Correa Baptista - Expresso. Confira matéria original aqui.


Morsa Images/Getty


Extroversão, conscienciosidade e neuroticismo são três fatores que desempenham um papel relevante na possibilidade de desenvolver problemas cognitivos ligeiros à medida que se envelhece


Pessoas mais extrovertidas e conscienciosas têm menos probabilidade de desenvolver um défice cognitivo ligeiro quando envelhecem, ao mesmo tempo que manifestações de neuroticismo fazem aumentar essa possibilidade, demonstra um estudo publicado no Journal of Personality and Social Psychology, da American Psychological Association.

Os investigadores analisaram os dados de 1954 participantes (1441 mulheres e 513 homens) do Rush Memory and Aging Project, um projeto sobre idosos que vivem na região metropolitana de Chicago, nos Estados Unidos. Os participantes, com uma média de idades de 80 anos, fizeram uma avaliação de personalidade e foram avaliados anualmente ao nível das capacidades cognitivas. Do total, 1386 não tinham nenhum problema cognitivo inicialmente, 486 apresentavam uma ligeira deficiência cognitiva e 82 sofriam de demência.

Em análise estiveram três dos cinco fatores globais de personalidade considerados pela psicologia: a conscienciosidade, o neuroticismo e a extroversão; ficaram de fora a abertura à experiência e a amabilidade. Os participantes com pontuação mais elevada ao nível da consciência ou mais baixa no neuroticismo apresentaram uma probabilidade significativamente menor de progredir de um estado de cognição normal para uma deficiência cognitiva ligeira ao longo do estudo. Ao mesmo tempo, um nível mais elevado de extroversão demonstrou estar associado a uma manutenção das capacidades cognitivas por mais tempo.

“Uma pontuação de aproximadamente mais seis pontos na escala da conscienciosidade, que varia de 0 a 48, foi associada a uma diminuição de 22% do risco de transição do funcionamento cognitivo normal para uma ligeira deficiência cognitiva”, aponta em comunicado Tomiko Yoneda, da Universidade de Victoria (Canadá) e autora principal do estudo. Pontuar mais cerca de sete pontos na escala de neuroticismo associou-se a “um aumento de 12% do risco de transição” entre os dois estados.

Concluiu-se que aqueles com mais conscienciosidade viveram quase mais dois anos sem problemas cognitivos do que os que apresentaram um valor mais baixo neste parâmetro. Quanto aos mais extrovertidos, calculou-se que mantinham uma cognição saudável durante aproximadamente mais um ano. Pelo contrário, o elevado neuroticismo surgiu associado a pelo menos um ano a menos de funcionamento cognitivo saudável. O estudo conclui que estes fatores têm impacto na extensão da saúde cognitiva, mas que não afetam significativamente a longevidade total.

Mesmo após o diagnóstico de défice cognitivo ligeiro, os indivíduos com maiores níveis de extroversão apresentaram uma maior capacidade para recuperar o funcionamento cognitivo normal, o que sugere que esta característica pode atuar como fator protetor. Tal acontece porque as pessoas mais extrovertidas tendem a procurar mais apoio social, o que contribui para o alívio de alguns sintomas, explica o estudo. QUE CARACTERÍSTICAS ESTÃO EM CAUSA? Ao nível da conscienciosidade, os indivíduos com maior pontuação caracterizam-se por serem responsáveis, organizados, trabalhadores e orientados por objetivos. Por outro lado, pessoas com níveis elevados de neuroticismo revelam pouca estabilidade emocional, duvidam de si próprias e têm tendência para oscilações de humor, ansiedade e depressão. Já os mais extrovertidos, de acordo com os autores, gostam de falar e de estar perto dos outros, apresentando uma elevada atividade social, assertividade, emoções positivas e sensibilidade à recompensa.

“Os traços de personalidade refletem padrões de pensamento e comportamento relativamente duradouros, que podem afetar cumulativamente o envolvimento em comportamentos e padrões de pensamento saudáveis e pouco saudáveis ao longo da vida”, lê-se no estudo. “A acumulação de experiências ao longo da vida pode, assim, contribuir para a suscetibilidade a determinadas doenças ou distúrbios, tais como a deficiência cognitiva ligeira, ou contribuir para diferenças individuais na capacidade de resistir a alterações neurológicas relacionadas com a idade e a neurodegeneração”, explica.

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