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Fatores de risco que estão por trás do suicídio de idosos

MAI 26, 2022

Mariza Tavares - Bem Estar. Confira matéria original aqui.


“Normalmente eles ficam isolados, o que faz diminuírem as chances de serem socorridos a tempo, além de estarem mais determinados a conseguir seu intento”, diz especialista


Nos Estados Unidos, maio é o mês da conscientização sobre a saúde mental, o que levou o National Council on Aging, entidade criada em 1950, a realizar um seminário on-line focado nos idosos e, especificamente, sobre uma questão delicada: o suicídio. Foi assim que conheci, virtualmente, Jeffrey Shultz, um homem de 63 anos, fala mansa e uma sofrida história de vida. A carreira promissora no setor de vendas, que o levara a galgar cargos executivos, foi abalroada por um evento dramático: o suicídio de Phil, seu filho caçula, em 2012.


“Eu já havia desacelerado o ritmo para poder me dedicar a ele, que sofria de depressão severa. Depois da sua morte, me vi num quadro de estresse pós-traumático. Em meio à dor e à culpa, afundei na depressão, e sabia que quem perde um filho é mais suscetível a cometer suicídio”, contou. Em 2019, acabou saindo da empresa e a situação só piorou, porque a insegurança financeira se somava ao isolamento. “Tinha até um plano para que minha morte parecesse acidental e minha mulher não perdesse o seguro. Terapia e o trabalho como voluntário, para evitar que outros trilhem esse caminho, me salvaram”, completou.

Suicídio entre idosos: normalmente eles estão isolados, o que faz diminuírem as chances de serem socorridos a tempo — Foto: Engin Akyurt para Pixabay Para o médico Yeates Conwell, professor de psiquiatria da Universidade de Rochester, há cinco Ds (em inglês) que funcionam como fatores de risco para o suicídio de idosos: depression (depressão), disconnectedness (falta de conexão, isolamento), disease (doença), disability (incapacidade) e deadly means (acesso a meios para fim à vida). “Os idosos são mais frágeis fisicamente e, portanto, o risco de morte aumenta quando tentam suicídio. Normalmente também ficam isolados, o que faz diminuírem as chances de serem socorridos a tempo, além de estarem mais determinados a montar um plano para conseguir seu intento. Por isso as intervenções devem ser assertivas e a prevenção é chave”, alertou.

O doutor Conwell informou que as armas de fogo respondem por 70% dos suicídios entre idosos norte-americanos e que os problemas geralmente estão interligados: “uma dor crônica impede a pessoa de trabalhar ou de realizar suas atividades, provoca seu isolamento e, consequentemente, leva à depressão”. Enfatizou a importância de os serviços de saúde fazerem uma avaliação rotineira para detectar um estado depressivo, através de testes de rastreio como o PHQ-9 (questionário sobre a saúde do paciente); GDS (escala de depressão em geriatria); ou CES-D (Center for Epidemiological Scale-Depression).


O paciente deve responder se perdeu o interesse nas atividades que antes lhe davam prazer; se convive com um sentimento de desânimo e desalento; se tem dificuldade para dormir ou vem dormindo em excesso; se acredita ter decepcionado a família ou si mesmo, entre outras perguntas. “Neste caso, é preciso tomar medidas preventivas para garantir a segurança do indivíduo, como a utilização de medicamentos, psicoterapia e uma rede de apoio”, ressaltou o médico, que quis encerrar sua apresentação com a história do empresário George Eastman, criador da Kodak: “ele se matou em 1932, com 77 anos, deixando um bilhete para os amigos: ‘my work is done, why wait?’ (‘meu trabalho está feito, por que esperar?´). À primeira vista, pode parecer que foi um homem decidido a ditar as regras da própria vida até o fim, mas sabe-se que sofria de dores muito fortes, provavelmente causadas por uma estenose espinhal, que é um estreitamento que afeta o canal da medula espinhal. Não tinha filhos, se afastara do convívio social, e é possível que estivesse deprimido”. Este blog já tratou do tema em entrevista com o psiquiatra Antonio Egidio Nardi, membro da Academia Brasileira de Ciências e professor da UFRJ, que frisou: “não passa de mito achar que falar sobre o assunto estimula o suicídio. É exatamente o oposto e deveríamos abordar a questão durante o ano inteiro, para que as pessoas se sintam motivadas a buscar assistência”. Segundo ele, há duas faixas etárias que merecem atenção especial: jovens e idosos. Enquanto os primeiros são foco prioritário das campanhas, os mais velhos acabam relegados a uma posição secundária. “Entre os jovens, para cada 200 tentativas de suicídio, uma tem êxito, enquanto, entre os idosos acima dos 65 anos, em cada quatro tentativas, uma dá certo”, afirmou.

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