Idadismo, infantilização e mais: o que mais velhos não devem mais tolerar

Atualizado: 18 de fev.

JAN 03, 2022

Brenda Fucuta - Universa. Confira matéria original aqui.


Imagem: iStock

Acesso a informações privilegiadas sobre o futuro. Quanto você não daria por isso? Se você convive com pais com mais de 80 anos de idade, certamente possui essa vantagem sobre os outros. Aproveite dela.


Tenho quase 60 anos. Nessa altura da vida, entendo que cada um é cada um e que, portanto, o envelhecimento também é uma experiência particular, por maior que seja a influência dos pais no nosso comportamento. Traduzindo: sei que o modo como meus pais envelhecem não determina o jeito que eu vou envelhecer. Na verdade, nem garante que vou chegar à idade deles. O envelhecimento é individual.


Adultos mais velhos não são todos iguais, assim como qualquer outro grupo etário. E filhos não são iguais aos pais, também são diversos, porque o jeito que somos e nos comportamos depende de nossa experiência de vida e da nossa singularidade, mais do que da mistura que vem na nossa carga genética.


Por outro lado, conviver com pais 80+ te dá um vislumbre do que o envelhecimento provoca nas outras pessoas. Isso, com certeza, é uma informação privilegiada, uma vantagem competitiva, podemos dizer. Com essa informação, você, no mínimo, ganha o direito de escolher entre o que quer e o que não quer para seu futuro, o modo como gostaria ou não de ser tratada na velhice.


Pensando nisso, criei a lista a seguir, uma mistura de experiências pessoais com opiniões de pesquisadores do envelhecimento. Quem sabe ela não ajuda a gente a construir um futuro melhor para os 1,4 bilhão de adultos mais velhos que habitarão o planeta em 2030?


Quando eu for uma adulta mais velha:


1) não quero que as pessoas falem de mim como se eu não estivesse presente. Talvez não haja dor maior, na pós-juventude, do que a invisibilidade. Um dia desses, alguém perguntou a mim quem cuidava dos meus pais. Antes que eu desse a já tradicional resposta: "ela está aqui, pergunte a ela", minha mãe, ao meu lado, respondeu: "Posso não parecer, mas sou capaz de me cuidar". Tóooim! Adoro quando ela faz isso.


2) não quero que as pessoas me tratem como um grupo, mas como um indivíduo. Idadismo é enxergar todos os adolescentes como irresponsáveis e todos os idosos como senis e dependentes. Adultos mais velhos não podem ser reduzidos a apenas duas imagens: a do aposentado rico e esportista ou a do adoentado e incapacitado.


3) não quero que as pessoas se escandalizem se eu continuar usando shorts e maria-chiquinha ou se eu sair para beber com as amigas. Que não confundam isso com vontade de ser jovem, mas com determinação de ser livre.


4) não quero que as pessoas me tratem como um bebê velho, mesmo se eu estiver usando fraldas por causa de uma possível incontinência urinária. Que as pessoas, especialmente as bem-intencionadas, não me tratem com paternalismo. O Guia para Falar sobre Envelhecimento e com Pessoas mais Velhas, lançado em dezembro pela organização Centre for Ageing Better, da Inglaterra, recomenda que termos piedosos sejam banidos. Eu acrescento: quando falar com mais velhos, nunca, nunquinha, use diminutivos. Vovozinha, senhorinha...


5) não quero ser uma excluída digital - o que equivale a dizer que não quero ser excluída. Segundo um artigo publicado pela Organização Mundial da Saúde, em sua plataforma A Década do Envelhecimento Saudável, constatou-se, no Japão, uma forte associação entre uso frequente da tecnologia e boa saúde e bem-estar entre adultos com mais de 65 anos. "A tecnologia deve ser desenhada de forma inclusiva para todos, considerando as singulares necessidades de adultos mais velhos", diz o artigo.


Se hoje, na pré-história da era digital, já está difícil pagar o acesso à internet e digitar no teclado pequeno, o que será de nós na chegada da internet das coisas, quando dependeremos de um aplicativo para apagar as luzes da casa? Sim, adultos mais velhos precisam ser chamados na hora em que empresas decidem criar aparelhos e serviços tecnológicos.

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