O que significa ser jovem há 60 anos

SET 17, 2021

Sofia esteves - Exame. Confira matéria original aqui.


Hoje completo 60 anos. Não estou contando isso para ser cumprimentada, mas para compartilhar como cheguei aqui. Continuo jovem, só que jovem há mais tempo


"Dizer que sou jovem há mais tempo é pura e simplesmente uma constatação. Talvez não científica, porque o tempo cronológico me diz que, sim, este corpo, esta embalagem do espírito, mudou bastante; mas é uma constatação de estado de espírito. Me sinto como aquela moça de 17 anos que tinha acabado de entrar na faculdade de Psicologia" (Divulgação/Divulgação)



Hoje, dia 17 de setembro, completo 60 anos. Não estou contando isso para ser cumprimentada, mas, sim, para compartilhar a minha experiência em chegar a essa idade. Uma idade que, veja bem, não é de gente velha. Nada disso! Continuo jovem, o que muda é que estou jovem há muito, muito, muito, muito mais tempo! (risos)

Costumo fazer essa brincadeira não por uma rixa com o calendário. Ele e eu nos damos bem e as folhas — ou os dígitos, na versão digital — passam com tranquilidade. Na verdade, até com certa ansiedade quando os dias se aproximam do meu aniversário, afinal sou daquelas que gosta de comemorar!


Dizer que sou jovem há mais tempo é pura e simplesmente uma constatação. Talvez não científica, porque o tempo cronológico me diz que, sim, este corpo, esta embalagem do espírito, mudou bastante; mas é uma constatação de estado de espírito. Me sinto como aquela moça de 17 anos que tinha acabado de entrar na faculdade de Psicologia.

Aquela jovem cheia de sonhos e desejos para o futuro, com muita vontade de aprender, curiosa e sempre sorrindo. Sorrindo como nesta foto acima, feita anos depois da minha “primeira juventude”!


Porque ser jovem é isso: é abrir um sorrisão, brilhar com o olhar, sonhar com o futuro, querer mais! É fazer perguntas, questionar, querer saber o porquê das coisas.


Eu era assim aos 17 e são assim também os tantos jovens que tive o imenso prazer de conhecer, orientar, desenvolver e encaminhar por meio do nosso trabalho na Cia de Talentos, na startup Bettha.com e no Instituto Ser +. Só que, veja bem, esse espírito inquieto que descreve tão bem a juventude não é exclusivo dessa faixa etária.


Aliás, quem me conhece, sabe que a inquietude é meu estado quase que constante, ainda que, há três anos, eu comente sobre o desejo de diminuir o ritmo. Uma decisão que nada tem a ver com a minha idade e, sim, com o meu desejo de ter mais tempo para a família e alguns projetos — aqueles outros amores que comentei em um artigo sobre sucessão.

(Divulgação/Divulgação)


Conto isso não para me justificar, mas porque é comum associarmos determinadas idades a uma falta de ânimo, como se uma pessoa com seis décadas não pudesse ser vista como alguém curiosa, cheia de energia, questionadora, sonhadora, inquieta. Por que essa imagem parece destoar dos sexagenários?


Costumamos esperar um padrão de comportamento muito específico de cada fase da vida, o que torna a comemoração dos 60 anos ou mais um grande pesadelo para muitos. Parece que chegou aquela tão temida fase do fim: o fim do vigor, o fim do trabalho, o fim dos sonhos. Só que não é assim — ou, pelo menos, não deveria ser.


Apesar de há alguns anos falarmos mais sobre etarismo (termo usado para se referir a um tipo de discriminação contra pessoas ou grupos baseado na idade), ainda existe aquela visão de que disposição, energia e vigor são adjetivos que se aplicam única e exclusivamente aos jovens. Para nós, pertencentes a outra faixa etária, são atribuídas qualidades como maturidade, experiência e sabedoria.


Não me leve a mal, eu aprecio as três características e, de fato, acho que foram atributos que adquiri ao longo do tempo. Porém, o erro do estereótipo é restringir as pessoas a papéis únicos e definitivos quando a realidade é que somos múltiplos. Podemos ser maduros e sábios, mas também inquietos e curiosos.


Resumir as idades a estereótipos é também excluir as pessoas de novas possibilidades. Um erro que pode impedir, por exemplo, um profissional mais jovem de assumir um cargo de liderança com a desculpa de que lhe falta experiência. E posso dizer que já conheci muitos jovens talentosíssimos em posições de comando.


No caso dos profissionais com a minha idade, o erro costuma ser aquele de enxergar o registro do RG como o fim da estrada. Afinal, o que mais uma pessoa acima dos 60 vai querer? Já deve estar cansada, querendo pendurar as chuteiras, sem novas ideias, mais lenta, menos disposta.


Esquecemos que grandes feitos, conquistas e reconhecimentos se deram bem depois da fase da “juventude clássica”: José Saramago teve suas obras reconhecidas mundialmente aos 60 anos com a publicação de "Memorial do convento", a nossa querida Palmirinha ganhou seu programa de TV culinário depois dos 60, Roberto Marinho fundou a TV Globo aos 61. E tantos outros fizeram e fazem coisas incríveis, ainda que elas não tenham sido destaque nos jornais!


Afinal, quem disse que os 60 é o fim? Por que não seria mais um ciclo de juventude? A juventude, neste caso, como um símbolo para a capacidade de sonhar e de fazer acontecer. Os anos se passam, o corpo muda e o mundo ao nosso redor também muda, mas por que não percebemos que algumas coisas dentro de nós permanecem as mesmas? Nem sempre a idade do espírito é igual a idade do RG.


Sei que tem quem enxergue o dia do aniversário como um lembrete da ingrata corrida contra o tempo, mas o meu convite é que você faça as pazes com o calendário e não se limite por conta dos números das velas do bolo de aniversário.


Brinco que sou jovem, só que uma jovem há muito, muito, muito, muito mais tempo, porém, não faço isso por ter medo da minha idade. Sou daquelas que não está na pista para correr desesperadamente das batidas do relógio. Os 60 anos chegaram e sou muito grata por poder continuar a minha caminhada, com objetivos que me movem e o espírito daquela jovem inquieta de 17 anos me dizendo, sorrindo, “vá em frente”. Assim, eu sigo!


(Divulgação/Divulgação)

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