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Os novos velhos estão a mudar as regras. E estão a levar a sociedade e a economia atrás

FEV 11, 2022

SAPO. Confira matéria original aqui.


Já não é uma previsão, mas uma realidade. À medida que a longevidade aumenta, nomeadamente nos países ocidentais, assiste-se a uma mudança no estilo de vida associado a ser mais velho.


AFP; FREDERIC J. BROWN

O impacto da longevidade na área da saúde, nos serviços de apoio ao domicílio e nas farmacêuticas não deixa ninguém surpreendido. Mas essa é apenas uma parte da realidade em sociedades em que as pessoas vivem mais anos e têm expectativas de vida diferentes das gerações que as precederam. Da vida profissional à vida social e familiar, há cada vez mais dados que evidenciam que essa diferença se tenderá a acentuar.

Esta mudança é sobretudo impulsionada pela geração mais nova de mais velhos, aquela que nasceu no início da década de 60 ou um pouco antes. São a geração que inventou a internet – Bill Gates nasceu em 1955, Tim Berners-Lee também – e se é certo que nem todos terão a mesma literacia tecnológica, é também verdade que há uma familiaridade com a tecnologia que muda muita coisa.

O TikTok, rede social por excelência da geração Z e da geração que vem atrás, os Alfa, é uma boa evidência nas mudanças de comportamento. Reuben Ng, autor do paper Not Too Old for TikTok: How Older Adults are Reframing Ageing e professor assistente na Universidade de Yale, referiu, em entrevista ao The Guardian, que os mais velhos "tornaram-se criadores de conteúdo de sucesso naquele que é um fenómeno de contra-cultura poderoso em que desafiam os estereótipos de velhice abraçando ou até mesmo celebrando a sua idade".

A investigação realizada por este académico revelou que são mais mulheres do que homens a participar nesta rede social, num estudo que envolveu a análise de 1382 vídeos publicados por utilizadores com 60 anos ou mais e com entre 100.000 e 5,3 milhões de seguidores. Cerca de um em cada cinco dos vídeos analisados brincaram com a vulnerabilidades associada à idade e cerca de um em cada dez denunciou o preconceito com a idade entre os mais jovens. No total, foram visualizados mais de 3,5 mil milhões de vezes. Um dos nomes com mais seguidores está registado na rede como @grandadjoe1933, tem 88 anos e é apontado como um dos "granfluencer" mais ricos do TikTok. Segundo pode ler-se na área de imprensa do TikTok, entrou na rede com ajuda das netas e a sua conta rapidamente se tornou um sucesso, tendo quase seis milhões de seguidores.

O TikTok não é o único exemplo. Na plataforma Reddit pode encontrar-se um grupo como o R/AskOldPeople [perguntem aos mais velhos] onde apenas são admitidos aqueles que nasceram antes de 1980 (sim, o mundo também se está a extremar nisto da idade e quem já não é “mais novo” é por inerência “mais velho”). Este grupo de subreddit tem tido um interesse crescente, à semelhança de outros grupos, reunidos em torno de interesses comuns.

Uma análise conduzida pelo Pew Research Centre, nos Estados Unidos, mostrou a mudança nos hábitos de utilização de tecnologia nos últimos 20 anos, entre as pessoas mais velhas. Em 2000, 14% das pessoas com 65 anos ou mais eram utilizadoras da internet; em 2019, o valor tinha crescido para 73%. Em 2014, apenas metade dos adultos possuía smartphones, hoje 81% das pessoas com 60 a 69 anos têm.

Também o ativismo social, visto como um dos comportamentos que define as gerações mais novas, mobiliza cada vez mais vários grupos de pessoas acima dos 60 anos. Não são a geração que viveu a primeira vaga de direitos civis e ambientais (nos anos 60 eram apenas crianças), mas são filhos ou irmãos mais novos da geração que os iniciou e hoje reencontram-se em iniciativas como, por exemplo, o ativismo ambiental ou a luta contra a desigualdade. O Third Act foi criado em 2021 e é um desses grupos. Pode ler-se na sua apresentação: "os americanos experientes são o grupo da população que mais cresce. Todos os dias, 10 mil pessoas passam a ter mais de 60 anos. O que significa que não há como fazer as mudanças necessárias para proteger o nosso planeta e sociedade a não ser que usemos o poder que temos".

Viver mais anos está também a ter impacto na relação com o trabalho. Em paralelo com lutas sociais, em países como a França, em torno da idade da reforma, há mais pessoas que não querem deixar de trabalhar depois dos 60 anos, mesmo que em alguns casos essa opção seja no sentido de realizar projetos que não tinham sido possíveis nas décadas anteriores.

Segundo dados do Bureau of Labor Statistics, nos Estados Unidos estima-se que 1,5 milhão de reformados estejam de volta ao trabalho. A taxa de participação na força de trabalho em pessoas com idade entre 55 e 64 regressou aos níveis pré-pandemia, mas não aconteceu o mesmo nas pessoas com mais 65 anos. Alguns analistas admitem que os obstáculos possam ter que ver com discriminação de idade, por um lado, mas também por não ser fácil encontrar salários ao nível do que já teriam auferido, nomeadamente para quem vem de profissões em que a componente física não é determinante.

Na criação de novos projetos, um dos indicadores é que há hoje mais startups lançadas por pessoas com mais de 60 anos e, apesar da imagem associada ao empreendedorismo ser de pessoas bastante jovens, um dos estudos recentes, conduzido por investigadores do MIT, Northwestern, Wharton e pelo U.S. Census Bureau, intitulado "Age and High-Growth Entrepreneurship",mostra que a idade tem um impacto positivo no sucesso. Um dos casos de sucesso que envolvem fundadores de empresas com mais de 60 anos é o do fundo de investimento ARK Invest, criado por Cathie Wood. Nasceu em Los Angeles, é mãe de 3 filhos e, em 2020, com 65 anos, foi reconhecida como a melhor stock picker (analista de ações). Fundou a ARK Invest quando tinha 57 anos e chama-lhe mesmo o "bebé" que teve com essa idade.

A qualidade das relações familiares e sociais é apontada como um dos pilares de um envelhecimento saudável e o britânico The Posh Club foi criado para combater o sentimento de isolamento. A ideia partiu de dois irmãos, Simon Casson e Annie Bowden, que começaram por querer proporcionar momentos de convívio, com pessoas da mesma idade, à mãe de ambos que se sentia sozinha e sem vida social. O primeiro evento foi feito apenas para ela e algumas amigas, todas entre os 80 e os 90 anos. Foi servido um bom lanche e a conversa estendeu-se por horas, das memórias de vida às músicas e espectáculos que mais gostavam. Nasceu aí o conceito de um espaço que todas as semanas juntasse grupos como elas e hoje são já cinco as localizações.

Hoje o The Posh Club tem já cinco localizações em Inglaterra e organiza semanalmente eventos que juntam 100 pessoas durante três horas e meia. Há chá, há champanhe, há música, dança e espetáculos burlescos.

A procura por atividades físicas é outro dos indicadores de mudança. A pesquisa no Google por "aulas de aeróbica aquática perto de mim" aumentou mais de 500% desde 2020, segundo a plataforma Ahrefs, mas outras opções como grupos de caminhada estão também em crescimento. Não é de estranhar atendendo à demografia dos novos velhos; afinal uma em cada seis pessoas terá mais de 60 anos até 2030. O que faz deste grupo uma das forças demográficas que irá moldar os estilos de vida nos próximos anos.

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