Por que gostamos mais da vida à medida que envelhecemos

ABR 21, 2022

Mariza Tavares - Bem Estar. Confira matéria original aqui.


Pesquisa indica que, com a idade, há uma maior liberação da ocitocina, o “hormônio do amor”


A ocitocina é conhecida como o “hormônio do amor” porque está associada a comportamentos positivos e amorosos, que vão dos cuidados maternais, como amamentar, ao relacionamento prazeroso de casais. Nosso organismo se encarrega liberar ocitocina para azeitar interações sociais, como as que temos com filhos e parceiros, encarregando-se de reforçar nosso apego aos outros. Produzida pelo hipotálamo, forma, junto com a serotonina e a endorfina, um trio que aumenta a sensação de bem-estar e diminui o estresse – não é à toa que as três também são denominadas de neurotransmissores da felicidade. E por que a “aula” de biologia no começo da coluna? Porque estudo divulgado hoje indica que, conforme envelhecemos, produzimos mais ocitocina, o que pode explicar por que aprendemos a apreciar a vida à medida que os anos passam!


Casal maduro: liberação da ocitocina se amplia com a idade e está associada à satisfação com a própria existência — Foto: Alisadyson para Pixabay O trabalho, publicado na revista científica “Frontiers in Behavioral Neuroscience”, investe em duas frentes. Para começar, indivíduos cujos cérebros fornecem uma quantidade maior de ocitocina tendem a ser mais generosos e satisfeitos com suas próprias vidas. A reboque vem a descoberta que essa liberação aumenta com a idade, sugerindo que, de um modo geral, as pessoas intensificam sua empatia em relação aos demais ao envelhecer. Seu autor principal, Paul J. Zak, criou o Centro de Estudos Neuroeconômicos da Claremont Graduate University e é pioneiro na integração da neurociência com a economia, ao identificar os processos mentais que dão sustentação a comportamentos virtuosos, como confiança e generosidade.

Zak se dedica ao tema há mais de 20 anos. Numa palestra TED realizada em 2011, chamou-a de “molécula da confiança”. Em sucessivos experimentos, dos quais inclusive participou como cobaia, confirmou que uma ampliação do seu nível no organismo elevava a generosidade dos indivíduos. “É a ocitocina que mantém nossas conexões sociais, que alimenta a moralidade”, ensina, fazendo uma ressalva: em cerca de 5% das pessoas, essa distribuição do hormônio não ocorre – e há fatores que desempenham um papel inibidor, como estresse, altas doses de testosterona e um histórico de abusos.

Paul Zak: criador do Centro de Estudos Neuroeconômicos da Claremont Graduate University, é pioneiro na integração da neurociência com a economia — Foto: Divulgação Dessa vez, os pesquisadores recrutaram cem indivíduos, entre 18 e 99 anos, e todos assistiram a um vídeo de um menino com câncer, que um estudo anterior confirmara como sendo um indutor da difusão de ocitocina pelo cérebro. Foram retiradas amostras de sangue dos participantes antes e depois da exibição. “As pessoas tinham a opção de fazer uma doação para uma instituição que trabalhasse com crianças com câncer, atitude que media seu comportamento de rápido engajamento social. Além disso, elas eram entrevistadas para nos fornecer informações sobre seu nível de satisfação com a vida. Aquelas que haviam liberado mais hormônio no experimento não apenas tinham uma maior inclinação para a caridade, como também estavam engajadas em outros comportamentos humanitários. Descobrimos ainda que a liberação aumentava com a idade e estava positivamente associada à satisfação com a própria existência”, afirmou Zak. Segundo ele, o achado é consistente com diversas tradições religiosas e correntes filosóficas: servir ao próximo leva o cérebro a nos abastecer com ocitocina e reforça a sensação de empatia e gratidão, num círculo virtuoso. Seu objetivo agora é replicar a pesquisa em grupos étnica e geograficamente diversos e utilizar dispositivos não invasivos que possam ser usados (wearables), permitindo um monitoramento de longa duração.

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