“Senior Living”: um mercado de alto potencial mas ainda pouco explorado em Portugal

AGO 31, 2021

Horacio Blum - Visão. Confira matéria original aqui.


Considerando todos os tipos de residências, a oferta do setor privado em Portugal está muito aquém dos níveis de França, Espanha, Alemanha ou Reino Unido.


FOTO: Marcos Borga

Senior Living é um conceito que tem vindo a ganhar bastante notoriedade em Portugal nos últimos anos. Este é, por um lado, o resultado dos investimentos de operadores locais e internacionais no aumento do número de instalações, mas, sobretudo, devido a mudanças estruturais que estão a acontecer no mercado de Portugal que apoiam este crescimento: as suas condições geográficas, bem como a emergência de novas tendências demográficas e sociais.


Mas o que entendemos nós por Senior Living? Do ponto de vista de habitação, podemos descrever este conceito como um tipo de instalações concebido, desenhado e operacionalizado tendo em mente os adultos seniores. Estas instalações fornecem à população adulta mais velha um ambiente de vida em comunidade. Atualmente existem vários subsetores de Senior Living, cada um deles orientado para um segmento particular de clientes e, mais especificamente, para diferentes fases de vida: desde os recém-reformados de 60-65 anos até pessoas que requeiram algum nível de cuidados médicos.


A forma como a indústria imobiliária fornece soluções de habitação para cada uma das necessidades varia de acordo com o segmento. Por exemplo, um sénior independente poderá requerer um serviço que se adeque ao seu estilo de vida, indo desde aldeias para reformados no Algarve ou na Costa de Prata, a edifícios em ambientes urbanos centrais repletos de amenities e serviços. Estes são apenas dois grandes grupos de produtos, e nem sequer têm em consideração conceitos nicho, tais como, coliving urbano para seniores ou comunidades de natureza religiosa, somente para nomear alguns.


Em Portugal, a família há muito que desempenha um papel central no cuidado dos seniores, quer seja através da assistência prestada pelo núcleo familiar ou por serviços de cuidados domiciliários. Contudo, fatores culturais e económicos, tais como, o aumento de agregados familiares monoparentais, a maior inclusão das mulheres no mercado de trabalho, ou a mobilidade da força de trabalho, têm sido determinantes na transformação da forma como a sociedade olha para os cidadãos seniores. Estes fatores são cruciais para a necessidade de oferta de mercado que seja capaz de responder a esta realidade em mudança, não somente em termos do número total de infraestruturas residenciais disponíveis, mas também em termos de aumento de qualidade dos seus serviços e do tipo de cuidados prestados.


Neste momento, a oferta tem sido principalmente focada nos diferentes graus de vida assistida, de soluções semiautónomas a soluções médicas. Existem cerca de 1800 instituições públicas e 740 privadas com capacidade para mais de 100 mil utentes, constituídas principalmente pelos chamados “lares de idosos”. Esta oportunidade tem sido aproveitada por grandes operadores privados, um grupo consolidado de empresas locais e europeias que constituem perto de 64 residências e 2700 camas. Apesar do crescimento sustentado, representam ainda somente uma pequena porção do potencial do mercado.


Considerando todos os tipos de residências, a oferta do setor privado em Portugal é ainda inferior a 20% do total, à semelhança da Suécia e da Noruega, mas muito aquém dos níveis de França (40%), Espanha (70%), Alemanha e Reino Unido (80%). Porém, os volumes de investimentos recentes na Europa demonstram a crescente relevância de mercados non-core, comparativamente a mercados core, como França, Alemanha e Reino Unido, os quais representam pouco mais de 50% das transações no setor em 2020, comparando com 65% que se verificou entre 2015 e 2019.


No futuro, além da consolidação em Portugal do modelo de assistência à autonomia em domicílio, prevê-se uma expansão do mercado de vida independente. Este setor abrange os recentemente reformados e os baby boomers, bem como os down-sizers que preferem manter certos aspetos dos seus estilos de vida, ao mesmo tempo que podem aceder a uma rede de serviços, alicerçados maioritariamente na comunidade e na conveniência.


Enquanto a esperança media de vida aumenta e as pessoas vivem durante mais tempo e com mais saúde, as escolhas de modelos residenciais para a classe sénior precisa de refletir estas mudanças, com esta dimensão a constituir agora uma oportunidade para investidores imobiliários.

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