As histórias de quem recusa o “limite de idade”

ABR 15, 2022

Sofia Correia Batista - Expresso. Confira matéria original aqui.


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O envelhecimento ativo é sinónimo de viver mais tempo e com saúde. Portugal definiu uma estratégia até 2025, alinhada com os objetivos da Organização Mundial de Saúde, para maximizar a capacidade das pessoas idosas


Há um livro de Vitorino Nemésio em que o poeta se insurge contra o fim da vida ativa. Chama-se "Limite de Idade" - é um manifesto contra o tempo, no momento mais triste da sua carreira, a passagem à idade da reforma. Hoje, o envelhecimento ativo é um desígnio das sociedades mais desenvolvidas, uma forma de compensar o desequilíbrio demográfico e aumentar a longevidade de forma saudável. O Expresso ouviu as histórias de quem continua a trabalhar muito para lá dos 65 anos.

ANTÓNIO BARRETO, SOCIÓLOGO, 80 ANOS

Quando nasceu, em 1942, António Barreto tinha uma esperança média de vida (EMV) de 54 anos. “Já vivi mais 25 do que era suposto”, diz ao Expresso o sociólogo, que continua a trabalhar diariamente, e cuja EMV – que é medida todos os anos – passou para os 86. “Não posso dizer que seja uma ansiedade permanente, até porque o meu trabalho não tem um contributo físico, que exija deslocações, movimento, força física, coisas que dão nota de envelhecimento. Mas, uma vez por outra, é impossível não pensar: até quando vou poder trabalhar?”

Cientista social, ex-ministro dos governos de Mário Soares, António Barreto foi presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos – que criou o portal de informação estatística, PORDATA – e defende a abolição do “limite de idade”, citando o poeta Vitorino Nemésio. “Tive o prazer de o ouvir, nos anos 60, a rosnar contra essa imposição selvagem. O único limite de idade é a morte.”

Portugal definiu para o período 2017-2025 uma estratégia para o envelhecimento ativo e saudável através de um conjunto de ações focadas na “saúde, participação, segurança e investigação”. Questionado sobre o assunto, Barreto diz que Portugal tem “políticas errantes” no que respeita à natalidade e envelhecimento. “Tenho para mim que o mais importante é favorecer o envelhecimento ativo, produtivo, das pessoas que conseguem criar, desenvolver serviços, produção artística, intelectual. Mas grande parte das políticas são de passividade, encaminhar os idosos para os lares. Tudo isto é gravoso, apesar de no discurso político escutarmos com muita frequência a importância da vida ativa.”

MARIA DE BELÉM, EX-MINISTRA, 72 ANOS

João Carlos SantosPara Maria de Belém, parar não é uma hipótese: acredita que continuar com a sua atividade é “essencial para manter uma vida saudável”, ao mesmo tempo que “quase todas as semanas acontecem desafios para novos projetos, novas intervenções, novas coisas para fazer”. “Mesmo que pensasse [em parar], não me deixavam!”, garante a antiga deputada e ex-ministra da Saúde, de 72 anos.

Maria de Belém é presença assídua em palestras e conferências a convite de diversas organizações, um “sinal de que as pessoas e as entidades confiam naquilo que eu possa transmitir”. Para si própria, também é “estimulante”, uma vez que a obriga a “pensar e estudar”. “Tenho de estudar muito para me manter atualizada.”

Com uma agenda que está sempre “muito ocupada”, Maria de Belém conta ao Expresso, entre risos, que “as pessoas da família têm de se inscrever na agenda” para poderem contar com ela. “Se a minha filha precisa que eu fique a fazer de avó tem de pôr na agenda, porque se não é uma coisa que falha”, explica. O seu dia a dia “varia muito”, por isso “tem de ser tudo muito organizado”. O que não falha é a vontade de continuar a participar a nível social: “Felizmente, até hoje, nunca me queixei de falta de energia. Se ainda temos energia e podemos dar um contributo positivo à sociedade, devemos fazê-lo.” Isto porque tanto a atividade física como a cerebral são essenciais no “controlo do processo de envelhecimento, que é um processo inexorável”.

Neste momento, a “grande batalha” da candidata à Presidência da República em 2016 é “a luta contra as desigualdades”, uma área em que “há sempre objetivos não concretizados” e que é “uma tarefa infinda, que está sempre com possibilidades de recuar”. “É preciso estar sempre com os olhos abertos e com vontade de corrigir aquilo que possa ser corrigível”, alerta.

Maria de Belém espera que esta rotina tão dinâmica contribua para a sua própria longevidade. “Acho que quem é e foi sempre muito ativo, a última coisa que quer é ficar dependente dos outros, porque sabe o trabalho e o incómodo que isso causa e que já não terá grande qualidade de vida”, conclui.

ISABEL DO CARMO, MÉDICA, 81 ANOS

Parar também não está nos planos de Isabel do Carmo. Aos 81 anos, a médica especialista em endocrinologia dá consultas quatro vezes por semana. Na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa dá algumas aulas no mestrado em doenças metabólicas e comportamento alimentar. “Mantenho tudo, exceto o hospital”, de onde saiu em 2013. O ativismo político atravessou toda a vida de Isabel do Carmo e, por estes dias, conta a sua experiência na peça Esta é a minha história de amor, em cena no Teatro Nacional D. Maria II. Ainda hoje mantém “muita atividade cívica”. Integra o grupo de profissionais de saúde Estamos do lado da solução, que é “muito ativo”. A propósito da exposição Império do Medo, tem participado em conferências por todo o país sobre a escravatura e a luta contra o racismo.

Está ainda a preparar um novo livro, além dos artigos de opinião que publica pontualmente. “Faço estas coisas porque tenho prazer em fazê-las e sinto muito o dever – não é uma questão moral, é uma questão de posição – de intervir, na medida do possível”, explica. Esta “atividade intensa” é algo que lhe dá “prazer”, mas tem um “lado negativo”. “Tem como consequência que tenho pouco tempo para a família e gostaria de ter mais, sobretudo para os meus netos”, lamenta.

As atividades com os netos contribuem para uma vida saudável e para a longevidade. “Os avós da minha geração são muito ativos com os netos, sobretudo as mulheres”, aponta. Isabel do Carmo considera que, com o “aumento da esperança de vida, aquilo que faz melhor à saúde das pessoas é serem ativas”. “Há muitas formas de ser ativo. Há pessoas que, com a minha idade, fazem uns quilómetros por dia a andar”, exemplifica.

A única diferença que sente é na importância do sono. Enquanto quando era mais nova “fazia diretas”, hoje em dia se dorme menos de nove horas fica “arrasada”. “Não tenho falta de energia nem de vontade”, garante. Essa vontade traduz-se em metas que quer ajudar a cumprir, relacionadas sobretudo com os “combates” que tem travado na área da Saúde, e também com a escrita.

ANTÓNIO CORREIA DE CAMPOS, POLÍTICO, 79 ANOS

A longevidade corre na família de António Correia de Campos: a mãe morreu com 97 anos, o pai aos 104. Este último, aos 80, “fazia projetos como se tivesse 20”, conta o antigo ministro da Saúde. “Foi uma pessoa que me ensinou a lidar com a longevidade. Só aos 102 deixou de conduzir e ficou muito zangado”, recorda. No ano anterior, tinha instalado 21 painéis fotovoltaicos em casa e tratava do seu pequeno olival. “Nunca parou.”

Correia de Campos explica: “o mais importante na vida é ter projetos”. Tem 79 anos e continua a trabalhar: “É a única coisa que sei fazer. Eu tenho de ter projetos.” Entre eles estão a preparação de um livro sobre temas atuais da área da Saúde e um possível livro de memórias – ainda não sabe se irá publicar –, que já conta com mil páginas. Além de contributos com várias instituições nacionais, neste momento o “trabalho mais importante” que desempenha é internacional: integra um grupo de 20 líderes globais que sensibilizam para a “pandemia silenciosa” da resistência aos antibióticos.

O dia a dia “varia muito”, com um ritmo “muito livre”. “Levanto-me às sete horas, ponho-me logo no computador, vejo as notícias do dia e depois, se estou bem-disposto, desato a escrever toda a manhã ou resolvo problemas urgentes”, conta. Surge também “muita gente com pedidos, propostas, intervenções”. “Procuro manter-me atualizado e manter muita documentação.”

Correia de Campos sente a mesma energia e vontade de contribuir. “Eu nasci para o serviço público”, aponta. “Os especialistas dizem que a melhor forma de manter as pessoas ativas é a atividade intelectual e também a física, as duas em conjunto. Escrever, ler, pensar, discutir, é muitíssimo importante.” Acrescenta que há “outra coisa que é muito importante: um almoço semanal com amigos”, assegurando que alguns “estariam muito pior” se não houvesse este encontro, que classifica como “essencial”.

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