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Mudanças no mundo e envelhecimento

OUT 30, 2022

Juliana Gai - Jornal de Brasília. Confira matéria original aqui.


As pessoas vêm sendo constantemente confrontadas com a necessidade de se adaptar a uma nova vida. Em meio a diversas transformações, como os mais idosos fazem para se reposicionar num mundo de celulares, chamadas de vídeo, consultas on-line, linguagem de WhatsApp, entre outras novidades? É importante ter cuidado com falsos métodos


Foto: Mart Production/Pexels/Divulgação


Olá, leitores. Tenho uma amiga muito querida que conheci agora em 2022. Trata-se de uma mulher 70+, muito inteligente e animada. Ela me ensinou a chamar o momento ocorrido em 2020 de “mudança no mundo”, em vez daquela palavra que a maioria das pessoas não aguenta mais ouvir e eu nem vou mencionar.

Bom, fato é que em 2020 realmente o mundo passou por um grande desafio e, também, por uma grande transformação. Ficamos todos restritos às nossas casas o máximo possível por meses. Crianças em aulas on-line, casais tentando resolver os problemas conjugais antes disfarçados pela correria do dia a dia ou pelas viagens, e pessoas idosas sendo afastadas do sentido da vida: academia, amigos, passeios, almoços de domingo e idas a consultórios de profissionais de saúde presencialmente.

Vocês já pararam para pensar no quanto isto impactou – e impacta – as relações sociais e a qualidade de vida de todos nós? É sobre isto que gostaria de falar hoje, um dia também muito complexo, em que enfrentamos, para além de tudo o que viemos passando desde 2020, o fatídico dia do segundo turno das eleições para presidente da República. Já não bastava tantas ocorrências, seguimos lidando com as brigas familiares infindáveis por causa das escolhas de cada um, que, numa democracia sólida, deveriam ser simplesmente respeitadas.

Mas penso que até isto tem a ver com as tais “mudanças no mundo”. As pessoas realmente foram confrontadas não só com a morte, mas com a necessidade de se adaptar a uma nova vida. Considerando também dentro do pacote, o empobrecimento mundial, a crise financeira nos lares, os divórcios, as empresas falidas, os desempregados, e um mundo que é novidade para a maioria dos seres humanos: a vida digital, a vida “on-line”. As pessoas estão nos seus limites! Quando avalio a situação, tentando ver de uma perspectiva racional, penso onde estão as pessoas em processo de envelhecimento em meio a tantas transformações. E onde estão os já velhos? Como se realocar nesta nova existência, cercada de celulares, chamadas de vídeo, teleconsultas, teleconferências, linguagem de WhatsApp, sites e links para resolver todos os problemas do mundo (aparentemente, claro).

Entendo que a internet possibilitou aos pacientes e famílias se empoderarem mais sobre opções de tratamento de doenças, prevenção em saúde e métodos para cuidar melhor dos seus idosos. É bom poder ter subsídios para discutir com o profissional de saúde que lhe acompanha. Porém, às vezes fico assustada com o excesso de informações que todos nós recebemos atualmente pelas redes sociais. Existe algo que é necessário se olhar: a veracidade da informação fornecida e o quanto ela é passível de ser empregada na prática. Acompanho algumas famílias de pessoas idosas com Alzheimer em consultoria gerontológica, onde elas planejam uma rotina de cuidado e estimulação adequada, capaz de ser implementada e cumprida por todos – familiares e cuidadores – no intuito de melhorar a qualidade de vida não só do doente idoso, mas também das famílias cuidadoras. Há que se usar de muito traquejo para instruir adequadamente as famílias.

Eu mesma forneço, em meu Instagram, muitas informações sobre envelhecimento saudável, doenças dos idosos e reabilitação. Ministro aulas para outros profissionais e os ensino a resolver muitos dos problemas dos idosos e suas famílias. Eu tomo um cuidado muito rígido com o tipo de informação fornecido, alio minha prática de duas décadas com conhecimento técnico e científico. Mas não vejo todos os profissionais fazendo isto.

Gostaria de contar aqui para meus leitores que milagres não existem. Pelo menos não do ponto de vista físico, palpável. Toda a nossa existência é pautada por muito trabalho. Milagres são questões espirituais. Falei disso semana passada. Milagres envolvem grandes transformações em um curtíssimo espaço de tempo. E não é isto que aprendemos com a vida. As transformações são feitas de desafios aos quais vamos, com muito trabalho e dedicação, nos adaptando.

Vale citar o exemplo da tal “cura” (ou da paralisação da “progressão”) da Doença de Alzheimer, porque é algo que vivo no meu dia a dia profissional. A descoberta do CBD (canabidiol) trouxe sim efeitos positivos e muitas promessas, mas não é um milagre. Pelo menos, não ainda. Homeopatias podem ajudar, sim. Eu sou até fã de homeopatia e uso. Suplementos alimentares e vitaminas podem ser importantes para as pessoas idosas. Entretanto, é preciso avaliar cada caso e também o contexto do uso no dia a dia das famílias. Eu vejo pessoas idosas tomando remédios de uma em uma hora. Vejo gente que acorda os velhos na madrugada para dar alguma pílula que alguém disse que tinha de ser administrada naquele horário. Vejo filhos vendo “lives” de profissionais com milhões de seguidores e acreditando em tratamentos sem comprovação científica. Sinceramente, acho tudo isto muito perigoso para a qualidade de vida de todos.

Eu sempre digo que, se tem algo que eu aprendi em 22 anos de profissão, foi que, em se tratando de envelhecimento, o simples costuma funcionar tão bem. Envelhecer traz consigo muitas demandas sim e as pessoas idosas enfrentam mais problemas no momento, devido ao somatório daquelas que surgiram a partir de 2020, incluindo a síndrome de desadaptação social, que é algo que as crianças e os adultos também estão enfrentando. A nova sociedade é desafiadora para todas as gerações. Mas, calma! Que tal ir mais devagar? Que tal avaliar melhor toda esta informação disponível? Que tal tentarmos retomar os laços familiares e de amizade? Que tal tentarmos viver com as pessoas idosas os últimos anos de suas vidas com amor e aceitação das limitações naturais. A tal resiliência está, desesperadamente, batendo às nossas portas.

Pessoas idosas precisam de rotina de cuidado, alimentação saudável, exercícios e amor. Simples assim. As pessoas idosas estão presentes! Elas desejam estar em paz para viver seus últimos anos. Elas não querem ver os filhos brigando por política ou pelos remédios e suplementos vitamínicos. Não querem ser acordadas de madrugada para tomar gotinha, seja lá quais sejam os objetivos, nem pílulas. Não querem tomar oito comprimidos de vitaminas de manhã cedo, em jejum e, em seguida, não conseguirem tomar o seu café da manhã.

Sim, há necessidades típicas do envelhecer. Às vezes é preciso ajustar a dieta, rever o plano de exercícios, educar sobre novos hábitos de vida, tomar mais cuidado com o sono, a incontinência urinária, o risco de quedas, observar as perdas funcionais. Profissionais de várias áreas podem ajudar nisto. Mas não percamos a percepção real de que envelhecer e morrer é algo natural, não precisa ser uma tortura cheia de imposições.

Deem paz aos idosos. Eles querem. Eles precisam. Eles tem direito de reivindicar isto!

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